O problema grita! Estamos dando ouvidos a ele?

Numa carta endereçada ao prefeito de Curitiba e publicada no livro de contos Desgracida (Record), de 2010, o escritor Dalton Trevisan vocifera:

“Onde anda o fiscal do meio ambiente? Cadê o guardião do nosso silêncio? Quem viu o medidor de decibéis? Impunes, os bárbaros da estridência invadiram e ocuparam a cidade. Altíssimos -falantes de propaganda, berrando oito horas por dia, infernizam a paciência de todo mundo. Na porta das drogarias, lojas, bibocas, caixas ensurdecedoras de som trombeteiam as suas bugigangas. São as predadoras truculentas da lei morta do silêncio”.

Se juntarmos os alto-falantes e caixas de som, que tomaram até praias e metrôs, ao barulho do trânsito, do tráfego aéreo, das obras nas vias, das reformas nos apês e das músicas que o sujeito obriga os vizinhos a ouvir, definitivamente podemos apreciar, de camarote, um pandemônio acústico.

E essa ópera-bufa está longe de ser fruto da imaginação. É realidade pura! Está gritando por aí e… a) não ouvimos; b) ouvimos, mas não ligamos; c) já nem ouvimos, pois surdos ficamos.

Então vamos dar nome aos bois — pobres bois, eles nada têm a ver com isso, mas sejamos fiéis à expressão. Estamos falando de poluição sonora, um problema de saúde pública para o qual a sociedade ainda não despertou.

E olha que motivos para chamar a atenção e tirar o sono não faltam. Sintetiza Trevisan, o vampiro acossado pela cacofonia de Curitiba: “Da poluição visual você ainda se defende, basta que não olhe. Contra a pichação sonora nada pode”. Assim não dá! Algo precisa ser feito. Por nós, pelas empresas, pelas autoridades públicas.

A poluição sonora nos faz adoecer. Previsões sobre o aumento no número de vítimas de perda auditiva nos próximos anos são assustadoras. Mas, como expõe o jornalista André Bernardo na reportagem de capa, o perigo não se limita aos ouvidos.

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Já há fartas provas de que a exposição a ruídos altos ou persistentes contribui para o colapso cardíaco, mental e cognitivo.

A saída, pelo menos para a maioria dos cidadãos, não se encontra em fugir da cidade grande e, como propôs o escritor americano Henry David Thoreau em seu clássico do século 19 Walden ou A Vida nos Bosques (Planeta), construir uma cabana e levar uma existência pacata e autossuficiente na mata.

Envolve, isso sim, bom senso, respeito ao próximo (e a si mesmo) e fiscalização para que se cumpram as leis que, em tese, estão aí para nos defender dessa sinfonia sinistra sem hora para acabar — sobretudo em ano de campanha eleitoral.

VEJA SAÚDE dá ouvidos aos sábios, aos cientistas e aos profissionais da área para fazer ecoar esse alerta. Que possamos desfrutar mais do silêncio — e sofrer menos com a poluição sonora.

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Arte premiada

Somos o único veículo de imprensa brasileiro a ser laureado com um mérito no SPD 57, a última premiação realizada pela prestigiada Society of Publication Designers. Estamos lá, representando o talento gráfico desta nação, com a matéria Em Busca de Ar — Por Que e Como Respirar Melhor, publicada em maio de 2021.

Meus cumprimentos à editora de arte Letícia Raposo, que concebeu o visual da reportagem, a Tomás Arthuzzi, responsável pelas fotos, e a Daniel Almeida, o autor das ilustrações. Prova viva de que a arte também informa!

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