Poluição sonora: um problema do barulho (e de saúde pública)

Já imaginou viver em um mundo onde, como diria aquela canção do Roberto Carlos, todos estão surdos? Um mundo onde as pessoas são incapazes de ouvir o som da chuva, o canto dos pássaros ou o riso das crianças?

Contando assim, até parece uma distopia criada pelo escritor português José Saramago (1922-2010), autor do romance Ensaio sobre a Cegueira (Companhia das Letras), ou um estudo de casos do neurologista inglês Oliver Sacks (1933-2015), que publicou Vendo Vozes — Uma Viagem ao Mundo dos Surdos (Companhia de Bolso).

Mas nada disso. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, até 2050, 25% da população global — quase 2 bilhões de pessoas — terá algum grau de perda auditiva.

Isso tem a ver com o envelhecimento populacional? Tem, mas o grande culpado por esse déficit que pode acabar em surdez, e de forma cada vez mais precoce, está gritando por aí: a poluição sonora.

“Todo e qualquer ruído perturbador ou indesejado que afeta os seres humanos e mesmo a vida selvagem está poluindo o meio ambiente”, afirma a otorrinolaringologista Tatiana Alves Monteiro, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. E, a exemplo da sujeira espalhada pelo ar, os barulhos que fustigam as cidades viraram um problema de saúde pública.

Não foi por falta de aviso que chegamos a essa encruzilhada acústica. Em 1910, o médico alemão Robert Koch (1843-1910), famoso por ter descoberto o bacilo da tuberculose, já tinha dado o alerta: “Um dia, a humanidade terá de lutar contra a poluição sonora com a mesma determinação que luta contra a peste ou o cólera”.

Ao que parece, esse dia chegou. Só que o mundo fez ouvido de mercador ao Prêmio Nobel. Deu no que deu: só a Agência Europeia do Ambiente atribui à exposição prolongada a ruídos acima dos limites toleráveis cerca de 18 mil mortes, 80 mil internações e 900 mil casos de pressão alta por ano.

“Estamos quase o tempo todo colocando nossa audição em perigo. E os danos são irreversíveis”, sentencia o otorrino Fernando Balsalobre, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

<span class="hidden">–</span>Foto: GI/ Ilustrações: Rodrigo Damati/SAÚDE é Vital

Diferentemente da fuligem das chaminés e do escapamento dos carros, a poluição sonora é invisível e tem gente que até se acostumou com ela. Mas está ali, no meio de nós: motores e buzinas, músicas no volume máximo, obras nas ruas… E, pior, até altas horas da noite.

“Mais que um incômodo, o excesso de barulho é um risco para a saúde”, declarou Zsuzsanna Jakab, diretora da OMS na Europa, em 2018. Risco para a audição, o coração, o cérebro… Precisamos falar — no tom adequado — sobre o assunto.

E é por isso que VEJA SAÚDE ouviu uma série de especialistas a respeito do mal nada silencioso provocado pelo ruído excessivo ou prolongado. E sinaliza o que podemos fazer antes que seja tarde demais.

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Ouvidos em pânico

Quem vê (e ouve) o vocalista e guitarrista Dave Grohl, de 53 anos, à frente de uma das maiores bandas de rock da atualidade, o Foo Fighters, não imagina que há 20 anos ele sofre de perda severa de audição.

“Para conversar com meus amigos, tenho que fazer leitura labial”, confessou. Ele bem que tentou fazer shows com protetor auricular, mas não se adaptou. Feito de acrílico, o acessório não elimina o barulho por completo, mas reduz consideravelmente o volume que chega aos ouvidos.

Grohl não é o primeiro astro do rock a admitir que sofre de zumbido ou surdez. Se eles resolvessem dividir o palco, teríamos uma banda daquelas: Bono Vox, do U2, ou Chris Martin, do Coldplay, nos vocais; Eric Clapton e Pete Townshend, do The Who, nas guitarras; Sting no baixo e Phil Collins na bateria.

“Não existe um critério objetivo para definir o que é som e o que é ruído. Para o público, um show é som, mas, para a vizinhança que quer dormir, é ruído”, diz o músico e arquiteto Marcos Holtz, diretor da Associação Brasileira para a Qualidade Acústica (ProAcústica).

Durante um show do Foo Fighters, o volume de decibéis, a unidade que mede a intensidade sonora, pode chegar a 110 dB. Para você ter ideia, a OMS recomenda que os sons não passem de 50 dB — o equivalente a uma conversa em tom normal.

Na falta de um sonômetro, aparelho que mede a quantos decibéis estamos expostos, o conselho é simples: observe se você precisa elevar a voz para ser escutado pelo interlocutor. Se a resposta for “sim”, é provável que o som ambiente esteja acima do limite ideal.

<span class="hidden">–</span>Ilustração: Rodrigo Damati/SAÚDE é Vital

Na faixa de 55 a 65 dB, o ouvinte já começa a ter dificuldade para se concentrar numa tarefa ou dormir um sono reparador. Acima disso, o barulho começa a causar pequenos estragos, ainda que imperceptíveis. Não é preciso ir a um show de rock para tanto.

Em casa, o ruído de um aspirador de pó ou de um secador de cabelo já bate 65 dB. Na rua, equivale a estar num restaurante cheio.

A partir dos 85 dB, corremos o risco de perder a audição ou ter prejuízos cognitivos no médio ou longo prazo. Quando chega a 140 dB, o ruído de uma explosão, corre-se o risco de destruir o tímpano, a membrana que protege o interior do ouvido.

“Somos uma ilha cercada de barulho por todos os lados. Estamos tão viciados em barulho que, quando viajamos para o campo, nos incomodamos com o excesso de silêncio”, repara a clínica geral Dulce Pereira de Brito, coordenadora de saúde populacional do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo.

Quando não é o som ao redor, somos nós que quebramos o silêncio e ficamos de fone de ouvido — frequentemente, com o volume acima do indicado.

<span class="hidden">–</span>Ilustração: Rodrigo Damati/SAÚDE é Vital

Mas não basta checar a escala de decibéis para saber se os ouvidos (e o resto do organismo) estão em apuros. Tão importante quanto a intensidade é o tempo de exposição à fonte do barulho. “Quanto maior o nível de ruído a que o indivíduo está exposto, menor deve ser o tempo de exposição”, resume o físico Marcelo de Mello Aquilino, doutorando em Epidemiologia e Acústica pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).

Um exemplo: se o ruído gira em torno de 85 dB, o indivíduo pode ficar exposto de maneira contínua e sem proteção por até oito horas. “Mas, a cada aumento de 5 dB na intensidade sonora, o tempo de exposição segura cai pela metade”, aponta o otorrino Arthur Castilho, presidente da Sociedade Brasileira de Otologia (SBO).

Ou seja, em um ambiente de 90 dB, o tempo máximo recomendado é de quatro horas de exposição; noutro de 95 dB, de apenas duas, e assim por diante.

<span class="hidden">–</span>Ilustração: Rodrigo Damati/SAÚDE é Vital

Nas grandes cidades, o vilão da poluição sonora atende pelo nome de trânsito. É a buzina de um carro aqui, o escapamento de uma moto ali, o estrondo de uma britadeira acolá… O barulho na Avenida Paulista, no centro de São Paulo, supera fácil a casa dos 95 dB.

O som poluente pode ser dividido em três categorias: baixa intensidade e longa duração, caso do motor do ônibus; alta intensidade e baixa duração, como a sirene da ambulância; e alta intensidade e longa duração, como o movimento dos aeroportos, 24 horas por dia, sete dias por semana.

“Esse é o pior de todos. É o barulho do qual você não consegue escapar”, alerta o patologista Paulo Saldiva, professor do Instituto de Estudos Avançados da USP.

<span class="hidden">–</span>Ilustração: Rodrigo Damati/SAÚDE é Vital

Uma pesquisa inglesa ilustra o estrago que o sobe e desce dos aviões — cuja barulheira chega a 120 dB — causa à saúde de quem mora perto de um aeroporto. Uma equipe do Imperial College London analisou dados de 3,6 milhões de pessoas que vivem no entorno do Aeroporto de Heathrow, na capital inglesa, e descobriu que a exposição ao som das turbinas das aeronaves aumenta em até 20% o risco de doenças cardiovasculares e derrames cerebrais.

À noite, o risco é ainda maior, acusa outro estudo, este da Universidade da Basileia, na Suíça, que investigou 25 mil mortes por infarto nos arredores do Aeroporto de Zurique entre 2000 e 2015. A conclusão: a exposição repentina ao pouso e à decolagem no período da noite aumenta o risco de fatalidades em até 44% e esteve associada a mais óbitos dentro de um período de até duas horas do barulho. Ao que parece, a definição de medo de avião acaba de ser atualizada.

<span class="hidden">–</span>Foto: GI/ Ilustração: Rodrigo Damati/SAÚDE é Vital

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Barulho por fora e por dentro

Nem é preciso viajar para o exterior para detectar impactos semelhantes. Uma pesquisa recente, baseada em informações da vizinhança do Aeroporto de Congonhas, na capital paulista, onde 60% das pessoas convivem com ruídos acima de 50 dB, flagrou uma relação direta entre o som dos aviões e o aumento da mortalidade cardiovascular.

Fazendo a ponte aérea para o Rio de Janeiro, palco do Rock in Rio, todas as noites o tecladista da banda A-Ha, Magne Furuholmen, de 59 anos, se lembra do show que a banda fez na segunda edição do festival. Em 26 de janeiro de 1991, o trio norueguês se apresentou no Maracanã para 198 mil espectadores. Desde então, o músico convive com um indesejado zumbido, que atrapalha inclusive o sono. Para alguns, o ruído lembra um inseto; para outros, o apito de um trem.

O zumbido, outra repercussão da poluição sonora (voluntária ou não), não só abala a qualidade de vida como pode ser sinal de perda auditiva. “É um quadro difícil de tratar. Pode melhorar com remédios em alguns casos. E ruídos alternativos como ventilador e ar-condicionado ajudam a minimizar o incômodo”, diz a neurologista Dalva Poyares, da Associação Brasileira do Sono (ABS).

Calcula-se que o problema atormente 28 milhões de cidadãos no país. O escritor Bernardo Carvalho, de 61 anos, é um deles. “Era, ou melhor, é como se as válvulas de um velho televisor sem imagem estivessem ligadas nos meus ouvidos”, comparou em crônica de 2006.

O zumbido passa a azucrinar quando as células da cóclea, órgão que capta os sons, são danificadas por uma pressão muito forte no tímpano. Semelhantes a minúsculos fios de cabelo, essas células foram feitas para vibrar ao menor volume. Mas, quando o som é muito alto, elas perdem a sensibilidade e deixam de funcionar.

“Da próxima vez que você ouvir um apito depois da balada, lembre-se: é o seu ouvido pedindo socorro”, avisa Balsalobre. Sim, o zumbido, quando constante, prenuncia o déficit de audição. Dependendo do grau de desgaste das células do ouvido, a perda auditiva é dividida em quatro estágios: leve, moderada, severa e profunda.

De acordo com a fonoaudióloga Marcella Vidal, gerente da Telex Soluções Auditivas, o quadro é leve quando você ouve o que o outro diz mas, se a voz for baixa ou estiver distante, tem dificuldade para compreender o que está sendo dito.

É moderado quando a fala é entendida só se a voz for alta ou se estiver vendo quem está falando. Severo quando, em vez de falar alto, é preciso ficar no ouvido da pessoa para ela captar o que está dizendo. E profundo quando, independentemente do volume ou da proximidade, a fala não é ouvida.

Fone de ouvido: aliado ou inimigo?

Mas não é apenas a buzina do carro, a música da balada ou o canteiro de obras que ameaçam o ouvido humano. Por incrível que pareça, o inimigo número 1 de muita gente é um artigo inseparável, o fone de ouvido.

Modelos de última geração podem atingir, no volume máximo, até 105 dB. Dói só de pensar, não? “O problema do fone de ouvido, geralmente usado por longos períodos e em intensidade elevada, é que o som é prazeroso e o usuário não percebe o dano que está causando”, adverte Castilho. Sabe quando você chega perto de um sujeito com fone e ouve o que ele está escutando? Não tem erro: o som já ultrapassou o limite recomendado pela OMS.

Ainda não inventaram uma maneira mais eficaz de proteger a audição ao ouvir música (ou qualquer outra coisa) do que abaixar o som. “Utilize até 60% do máximo de potência do dispositivo”, orienta Andréa Cintra Lopes, presidente do Conselho Federal de Fonoaudiologia (CFF).

E mais: use o fone por no máximo 60 minutos e faça uma pausa na sequência. Quanto ao modelo, prefira os supra-auriculares, ou on-ear (que ficam sobre a orelha), aos intra-auriculares, ou in-ear (dentro da orelha). São menos invasivos e mais confortáveis.

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Entre altos e baixos volumes

Em alguns casos, a perda auditiva após a exposição a barulhos é temporária. Em um ou dois dias, tudo volta ao normal. Em outros, quando o ruído é persistente ou está acima do tolerável, pode ser definitiva e levar à surdez.

Nessas circunstâncias, uma das soluções acaba sendo o aparelho auditivo. As próteses, cada vez mais inteligentes, não fazem mágica. Elas amplificam o som captado por microfones. Mas o ideal mesmo é não deixar a coisa chegar lá.

Por isso, fonos e médicos orientam a uma só voz: não espere ter dificuldades para entender o outro ou viver aumentando o volume da TV para procurar apoio profissional. Especialmente se você vive cercado de sons, em razão da profissão ou do local em que mora, vale fazer uma consulta anual.

O otorrino vai avaliar queixas e eventuais sintomas, como sensação de ouvido tampado e coceira na orelha, e, se necessário, pedir uma audiometria, teste que identifica deficiências. “Na maioria das vezes, a perda auditiva é lenta e gradual. Só que, quando o paciente procura o médico, em geral já perdeu 40% da capacidade de ouvir”, observa o otorrino André Ricardo Mateus, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo.

Quanto ao escritor Bernardo Carvalho, ele conta que, 16 anos depois de escrever aquela crônica, aprendeu a conviver com o zumbido. “Era só uma questão de se acostumar”, resigna-se. “Pelo menos no meu caso, é muito mais uma condição psicológica do que física.”

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Difícil mesmo, quase impossível, é se acostumar com o barulho da noite paulistana. Morador do bairro de Higienópolis, ele reclama de bares e restaurantes que desrespeitam a lei do silêncio.

“Bem embaixo do meu apartamento, há um bar com música altíssima, sem proteção acústica. E, apesar das inúmeras reclamações ao longo dos anos, nenhuma autoridade toma nenhuma providência”, denuncia o escritor.

<span class="hidden">–</span>Foto: GI/ Ilustração: Rodrigo Damati/SAÚDE é Vital

A cabeça e o corpo se ressentem

Durante a pandemia, sem poder sair de casa para fazer shows, o cantor e compositor Alceu Valença, de 75 anos, se dedicou a tocar violão, gravar lives e compor músicas. Foram mais de 25, entre xotes, frevos e maracatus.

Uma delas, Ópera Neurótica, foi feita em homenagem aos vizinhos do andar de cima que, em pleno isolamento social, resolveram fazer reforma no apartamento.

“Uma sinfonia de martelos e britadeiras não deixa o poeta dormir ou pensar”, postou no Twitter Valença, que mora no Leblon, no Rio, em setembro de 2020. Na capital fluminense, só nos primeiros três meses de pandemia, o número de reclamações entre vizinhos cresceu 70%. Em São Paulo, chegou a 200%.

Segundo a Associação Brasileira das Administradoras de Imóveis (Abadi), sete em cada dez queixas estão relacionadas a, adivinhe, barulhos.

Valença até que levou o perrengue numa boa. Mas nem sempre é assim. Em agosto de 2020, um homem de 69 anos, cansado de reclamar, jogou gás tóxico no apartamento do vizinho, que fazia uma obra havia dois meses. O caso aconteceu nos Jardins, na capital paulista, e foi parar na Justiça.

“O barulho é um fator altamente estressante. E, em excesso, pode fazer mal ao coração”, alerta a psicóloga Suzana Avezum, diretora da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp). Mas como é que os decibéis nas alturas perturbam até o músculo cardíaco e o cérebro, a ponto de, como alertam estudos e a própria OMS, ser fator de risco para infartos e AVCs?

Com a palavra, Dulce Pereira de Brito: “Nosso ouvido é uma porta aberta para o mundo. Ao ouvir um som estridente, o corpo libera cortisol, que aumenta a frequência cardíaca e eleva a pressão arterial”, descreve a médica do Einstein.

Uma investigação da Universidade de Newcastle, na Inglaterra, apurou que, em altas doses, o hormônio do estresse, como é conhecido o cortisol, não só potencializa a propensão a danos ao coração como fragiliza a imunidade e nos deixa mais vulneráveis a gripes e outras infecções respiratórias.

“E o som nem precisa ser tão elevado”, salienta o cardiologista Cláudio Domênico, coordenador do Hospital Pró-Cardíaco, no Rio. “O barulho moderado por tempo prolongado também pode gerar estresse e resultar em problemas cardiovasculares”, diz o autor de Em Suas Mãos – Escolhas e Renúncias para Viver Melhor e com Mais Saúde (Intrínseca), livro que já listava a poluição sonora como fator de risco cardíaco.

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A tenebrosa orquestra não acaba aqui. A poluição sonora nas escolas e faculdades atrapalha o raciocínio, dificulta a concentração e prejudica a memória de alunos e professores. “A atenção é fundamental para processarmos e guardarmos eventos. Precisamos estar atentos ao que o professor ensina para lembrar do conteúdo na hora da prova”, afirma o neurologista Leandro Tanaka, da Academia Brasileira de Neurologia (ABN).

Para as salas de aula, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) estipula um limite de até 50 dB. Muitas turmas, principalmente as superlotadas, atingem 80 dB. Na hora do recreio, o ruído pode ultrapassar os 100 dB. Não é à toa que, como mostra pesquisa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) feita com 700 estudantes de 6 a 14 anos, 70% deles se declarem insatisfeitos com a algazarra acústica em classe.

Para 99% das crianças ouvidas, os maiores poluidores são os próprios colegas, e, curiosamente, apenas 22% admitiram fazer barulhos. Parodiando o filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980), barulhentos são os outros!

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No local de trabalho, o cenário não é lá muito diferente. Entre as profissões mais expostas ao ruído abusivo, estão os profissionais do setor industrial, como os metalúrgicos, e os operários da construção civil, como os pedreiros. Ao ar livre, trabalhadores do agronegócio também estão sujeitos aos altos decibéis emitidos por tratores, colheitadeiras e pulverizadores.

“Os funcionários de gráficas são outros que precisam ter cuidado redobrado. Não bastasse operar maquinários barulhentos, ainda estão expostos a solventes e outros produtos químicos que podem ser tóxicos aos ouvidos”, exemplifica o médico do trabalho João Silvestre Silva Júnior, professor do Centro Universitário São Camilo, na capital paulista.

Mesmo o escritório (ou o home office) pode esconder perigos — a começar pelo uso massivo do fone de ouvido em volume inadequado.

Ah, mas encerrado o expediente a gente volta para casa e pode dormir como uma pedra, certo? Errado! O barulho não tira folga nem entra de férias. Em São Paulo, o número de reclamações sobre poluição sonora subiu 27%. Passou de 15,5 mil em 2020 para 19,8 mil em 2021.

No Rio, o aumento foi ainda maior: 72%. De 14,8 mil para 25,6 mil, no mesmo período. E olha que triste ironia: o bairro carioca mais barulhento, segundo ranking da prefeitura, é também o que concentra a maior população de idosos, Copacabana.

“Os quiosques da orla parecem competir para ver quem toca a música mais alto”, queixa-se o gerontólogo Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional de Longevidade Brasil (ILC Brazil). “O Brasil virou um grande Velho Oeste”, compara o médico. Para suportar tanta balbúrdia, a “Princesinha do Mar” tem de recorrer a protetores auriculares.

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Poluição (e solução) por todos os lados

Houve um tempo, não muito distante, em que o único som audível nas praias do Rio era o das ondas do mar. De uns anos para cá, tudo mudou. Nas areias, em meio a barracas, guarda-sóis, cadeiras e ambulantes, tem gente que, para a infelicidade geral da nação, liga sua caixa de som no volume máximo.

“Mesmo em um dia suave de verão, de céu azul, sem nuvens no horizonte e com a brisa do mar aliviando o calor, os banhistas são obrigados a ir embora”, escreveu o fotógrafo Leo Aversa em crônica publicada no jornal O Globo em 1º de fevereiro de 2022.

No mesmo dia, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, repercutiu o texto. “Espaço público é para todos. Não para fazer o que bem se entende”, postou. A denúncia surtiu efeito. Desde o dia 26 de abril, o uso de caixas de som nas praias cariocas está proibido. Quem descumprir a medida, que não inclui os quiosques da orla, terá seu equipamento apreendido pela Guarda Municipal.

“Os tempos modernos são tão barulhentos que ficar em silêncio é motivo de aflição”, analisa o psiquiatra Guilherme Spadini, professor da The School of Life. “Tem pessoas que, quando chegam em casa, já ligam a TV só para não se sentirem sozinhas”, observa.

Ao ser indagado se prescreveria “pílulas de silêncio” aos seus pacientes, Spadini explica que a ausência de som funciona como um calmante natural, sem contraindicação ou efeito colateral. “Meditar em silêncio traz benefícios tanto físicos, porque reduz a pressão arterial, quanto mentais, porque combate a ansiedade”, justifica o médico.

Spadini não é o único a enaltecer o poder do silêncio para a saúde. Outra adepta é a terapeuta Gabriela Bal, pesquisadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Em sua prática clínica, recomenda dois tipos de silêncio: o de movimentos e o de pensamentos.

O primeiro é alcançado com pequenas pausas no dia a dia, de preferência entre uma atividade e outra. O segundo, por meio da contemplação. “As pessoas não sabem mais ‘não fazer nada’. Estão sempre fazendo algo, o tempo todo, mesmo nas férias. Não por acaso, retomam a rotina mais cansadas do que antes”, avalia.

Ficar em silêncio faz bem à saúde. “Ter momentos de introspecção ao longo do dia é tão benéfico quanto adotar uma dieta saudável ou praticar exercícios regularmente”, endossa a médica Dulce Pereira de Brito.

Estudos comprovam que os minutos de quietude e relaxamento aliviam o estresse e a ansiedade, melhoram o padrão respiratório, reduzem a pressão e turbinam a memória.

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Então, em vez de “vaiar até o minuto de silêncio”, como dizia o dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980), que tal tornar nossa vida menos caótica? Começando em casa. Basta andar com chinelos macios pelo apartamento, ligar o som ou a TV num volume moderado e evitar festas no horário noturno.

No trânsito, buzinar somente quando necessário, manter o rádio desligado ou baixinho a caminho do trabalho e fazer as revisões mecânicas regularmente. Ora, nem você nem os vizinhos de tráfego merecem um escapamento barulhento.

No lazer, dá para fugir da muvuca e optar por recantos mais sossegados, como parques, bosques e jardins. “Os sons da natureza são os mais relaxantes que existem. Dez ou 15 minutos já são suficientes para aliviar a tensão e encontrar uma sensação de paz”, prescreve Dulce.

Mas e no trabalho? Dependendo do seu ramo, a empresa é obrigada a fornecer equipamentos de proteção individual (EPIs) aos funcionários. Em defesa da audição, existem tanto os protetores auriculares como os abafadores de ruídos.

Lembra do plug que o médico recomendou que Dave Grohl usasse nos shows? Então, eles podem ser recrutados no emprego, na balada e na hora do rush. Não eliminam a pauleira, mas conseguem abafar até 30 dB. “Quando a fonte do ruído está no ambiente de trabalho, a responsabilidade de minimizar o problema é do empregador”, pontua Silva Júnior.

“Há várias estratégias, como trocar o maquinário que provoca o ruído, realizar manutenção periódica para evitar o desgaste de peças e, em último caso, isolar a fonte de ruído para ela não se propagar pelo ambiente”, ilustra o médico.

No espaço público, as autoridades têm muito a fazer. Além de proibir fontes de som fora do controle em praias e praças, uma saída é caprichar no plantio de mudas e no espaço cedido às árvores — as copas funcionam como isolante acústico, por isso ruas arborizadas são mais tranquilas.

Mas, já que leis antibarulho existem, a medida mais crucial é melhorar a fiscalização, o que vale para estabelecimentos como bares e casas de show mas também para festas privadas. O barulho em lugares com música ao vivo e transmissão de jogos ultrapassa os 80 dB, enquanto o limite permitido ali é de 60 dB.

E o duro, como critica Kalache, é que mesas, cadeiras e sons invadem as calçadas e o ouvido alheio. “As pessoas gritam e cantam sem se incomodar com quem mora na região”, diz.

Pelas regras da ABNT, o limite de barulho tolerável em áreas estritamente residenciais varia de 50 dB (de dia) a 45 dB (à noite) e, em áreas predominantemente industriais, de 70 dB (de dia) a 60 dB (à noite). Em áreas mistas, vai de 60 dB (de dia) a 55 dB (à noite).

“Chega de barulho! O silêncio é um direito do cidadão e precisa ser respeitado”, protesta o advogado Waldir de Arruda, autor do livro Perturbações Sonoras nas Edificações Urbanas (Del Rey Editora). Tapar os ouvidos para esse problema e suas desastrosas consequências à saúde não é uma opção.

<span class="hidden">–</span>Foto: GI/ Ilustrações: Rodrigo Damati/SAÚDE é Vital

 

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Durma com essa?

Todo mundo tem uma dica infalível para dormir bem apesar do barulho lá fora. Uma delas é pegar no sono com o fone de ouvido ligado.

“Mas o ouvido precisa de descanso para se recuperar da sobrecarga diurna”, desaprova a fonoaudióloga Andréa Cintra Lopes. Há outras táticas: música clássica, sons da natureza e até TV ligada. Já o “ruído branco” tenta mascarar o barulho com outro mais neutro.

“São soluções paliativas. O ideal é tentar dormir em silêncio”, diz a médica Dalva Poyares.

A proteção da lei

Pensa que fazer barulho é algo a ser evitado somente entre 10 da noite e 7 da manhã? Não é! Ao longo do dia, a lei do silêncio também precisa ser respeitada.

“Caso contrário, as pessoas que trabalham à noite e descansam de dia teriam menos direitos que as demais”, nota o advogado Waldir de Arruda.

Em caso de desrespeito à legislação, que engloba o artigo 1.277 do Código Civil, há três caminhos a seguir: solução amigável, notificação extrajudicial e, em último caso, ação judicial.

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