A nova batalha da Covid-19

Os dramas desta pandemia me fazem lembrar de um livro da ensaísta americana Susan Sontag, Diante da Dor dos Outros (Companhia das Letras). Ali, a escritora analisa como reagimos com choque, empatia ou indiferença diante das imagens de sofrimento e destruição produzidas pelas guerras — das gravuras de Goya sobre o ataque das tropas de Napoleão à resistência espanhola às fotos da Segunda Guerra Mundial e às cenas de TV dos conflitos modernos protagonizados pelos Estados Unidos.

Uma das constatações da autora é que a familiaridade com as vítimas tende a reger o modo como lemos e sentimos essas imagens. Guardadas as devidas diferenças — e trocando o cavaleiro apocalíptico da guerra pelo da peste —, algo muito parecido pode acontecer quando deparamos com as cifras de milhões de vítimas do coronavírus, não só as vidas ceifadas mas também aquelas comprometidas, de alguma forma, pela Covid-19.

Falar em milhões de brasileiros recuperados da infecção, parte considerável deles enfrentando sintomas e sequelas de longo prazo, pode despertar sofrimento em alguns e indiferença em outros. Afinal, quem são esses milhões? Vemos números, não nomes ou rostos. A não ser que passemos pela experiência ou tenhamos alguém próximo em risco, podemos alimentar a ilusão de que o mal nem é tão ruim assim.

É para documentar a gravidade e os mistérios que pairam sobre essa enfermidade de origem infecciosa, cujas repercussões não se restringem a um espaço confinado do corpo, tampouco a uma janela de tempo após a eliminação do vírus, que preparamos a matéria de capa deste mês. Porque, depois da Covid-19, ainda temos a síndrome pós-Covid — ou Covid longa, como alguns preferem.

Estamos diante de uma nova doença? Como uma infecção com raízes respiratórias abre a caixa de Pandora de complicações em zonas tão distintas como coração, cérebro e pele? O trabalho de pesquisa e reportagem de Chloé Pinheiro vai além das hipóteses e soluções médicas — num enredo em que reabilitação é palavra-chave.

Nossa jornalista também traz nomes, rostos e histórias que personificam a magnitude do problema. Aliás, temos que agradecer a Lila, Angélica, Mary, Antonio, Clarissa, entre outros, por compartilharem suas lutas pessoais com os reflexos duradouros da infecção.

O pós-Covid cobra uma reorganização do sistema de saúde, que ainda não deve deixar de lado os cuidados com o coronavírus em si e com as doenças crônicas que continuam fazendo estragos por aí. Nós, enquanto sociedade, não podemos ficar insensíveis a essa batalha.

Vem aí nosso prêmio de inovação médica

Os cientistas e os profissionais de saúde brasileiros merecem muitos aplausos pelos esforços, descobertas, invenções e aperfeiçoamentos que, hoje ou amanhã, ampliam nossa expectativa e qualidade de vida. É por isso que VEJA SAÚDE é curadora de um prêmio de inovação médica junto à Dasa, um dos principais grupos de saúde do país.

A iniciativa chega à sua quarta edição buscando e promovendo pessoas e instituições que fazem a diferença nos campos da prevenção, do diagnóstico, da genômica, do tratamento e das causas sociais e coletivas. Se você atua na área — em universidade, hospital, startup, centro de pesquisa, ONG etc. — e tem um projeto com resultados fechados, acesse o site e saiba as novidades.