Cigarro eletrônico coloca o coração dos mais jovens em risco

Ao assistir uma palestra durante o Simpósio Novas Fronteiras na Prevenção Cardiovascular da Mulher, realizado em parceria com o American Heart Association, fiquei chocada com um dado apresentado. Nos últimos dez anos, os eventos cardiovasculares estão aumentando em jovens americanos, apesar dos avanços da medicina.

Quem trazia as informações era a pesquisadora Nanete Wenger, lendária professora emérita da escola de medicina da Universidade Emory, em Atlanta, que dedicou mais de 50 anos a estudar as doenças cardiovasculares em mulheres e foi uma das primeiras cientistas nos Estados Unidos a trazer dados mostrando que esses problemas não são exclusividade dos homens. Agora, o que justificaria esse cenário relacionado aos jovens?

Hábitos pouco saudáveis – como sedentarismo, alimentação ruim e o consumo excessivo de drogas – podem ser alguns dos fatores corroborativos.
Mas há um elemento inusitado, que não pode ser deixado de lado quando analisamos dialeticamente as mortes por doenças cardiovasculares na faixa etária até 40 anos: o galopante apelo do cigarro eletrônico, ou vape. No Brasil, a comercialização é proibida por força de lei – mas, infelizmente, tem quem consiga comprá-lo.

No mercado há aproximadamente 20 anos, o cigarro eletrônico ganhou força no mundo entre 2011 e 2018, quando se registrou uma disparada de cerca de 13 vezes no consumo entre os jovens, passando de 1,5% para 20,8%, justamente na década na qual apurou-se o aumento de mortes nesta faixa etária. Em linguagem coloquial: tem focinho de porco, orelha de porco e, portanto, não deve ser tomada.

De acordo com dados da National Youth Tobacco Survey (NYTS), de 2018, o uso de cigarros eletrônicos entre alunos do ensino fundamental e médio nos Estados Unidos aumentou de forma alarmante, com mais de 3,6 milhões de usuários jovens, tornando-se o produto do tabaco mais utilizado pelos adolescentes daquele país.

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Nesses mesmos anos, entre os alunos do ensino médio que usavam cigarros eletrônicos, a preferência por versões saborizadas cresceu de 60,9% para 67,8%. O fenômeno pode ser atribuído ao apelo do aroma, que eleva a probabilidade de atrair crianças e adolescentes.

Para ter ideia do apelo dessas versões com gosto e aroma, no ano passado, nos Estados Unidos – onde a comercialização dos vapes é legalizada –, foi proibida a venda da maioria dos sabores de cigarros eletrônicos, visando coibir a crescente procura do produto por adolescentes.

Dos males, o maior

À exemplo do que as gerações anteriores viveram com o cigarro de papel, que foi largamente associado ao glamour pela publicidade até o início dos anos de 1990, o vape ganha fama nas redes sociais, principalmente nas mãos de influenciadores digitais, com a falsa proposta de ser uma alternativa menos nociva que o convencional.

Embora a mudança completa de cigarros combustíveis para cigarros eletrônicos possa eventualmente beneficiar a saúde de fumantes adultos viciados, nenhum produto do tabaco – incluindo cigarros eletrônicos – é seguro para jovens.

Isso porque o cérebro dos adolescentes ainda está em desenvolvimento, e a exposição à nicotina pode mudar a maneira como o órgão funciona, levando a uma vida inteira de dependência – e, em alguns casos, causando efeitos duradouros, como aumento da impulsividade e transtornos de humor.

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É comprovado que o cigarro convencional é danoso à saúde, sendo o tabagismo a principal causa de morte evitável no mundo. Fumar compromete a função endotelial e aumenta a liberação de radicais livres de oxigênio, além de acelerar o processo aterosclerótico, mesmo com baixo consumo de cigarros e até entre tabagistas passivos.

Os malefícios causados pelo cigarro eletrônico, porém, são apenas menos conhecidos porque mudam de acordo com a evolução desses dispositivos, que, aliás, sofrem mutações constantes.

Outros produtos químicos inalados pelo fumante de cigarro eletrônico variam de acordo com o modelo do acessório, mas, entre os componentes, destacam-se solventes químicos, compostos orgânicos voláteis e aldeídos, metais pesados, hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, material particulado ultrafino, além de compostos que produzem os sabores.

O cigarro eletrônico não expõe o usuário ao monóxido de carbono, é verdade, uma vez que não há combustão e o aquecimento é feito por bateria. Porém, elementos como a nicotina líquida, principal vilã dos efeitos colaterais ao sistema cardiovascular, está ali, o que fecharia a conta para explicar o número elevado de mortes por doenças cardiovasculares entre o público jovem depois que esse mau hábito virou moda.

A comercialização, importação e propaganda de todos os tipos de dispositivos eletrônicos para fumar são proibidas no Brasil, por meio de uma Resolução da Anvisa (RDC nº 46/2009). Um Projeto de Lei (5087/20) pretende dar força à RDC e proibir, em todo o território nacional, a produção, a importação, a publicidade e a comercialização de cigarros eletrônicos ou outros dispositivos eletrônicos para fumar, incluindo acessórios e refis.

Ambas as medidas são acertadas e os apelos em contrário são um grande desserviço para a saúde pública brasileira. Afinal, assim como acontece com o cigarro convencional, não há um nível considerado seguro para o consumo de cigarro eletrônico. Ao contrário: o seguro é nunca consumir. As informações que a professora Nanete Wenger nos traz reforçam que o Brasil está no caminho certo.

*Jaqueline Ribeiro Scholz é assessora científica da SOCESP e diretora do Programa de Tratamento do Tabagismo do Incor, do Hospital das Clínicas da USP.