Comunidades compassivas: um modelo de cuidado para o Brasil

Integro, no Rio de Janeiro, um grupo que desenvolve um trabalho em favelas chamado “Comunidade Compassiva”. Somos pessoas que se uniram para cuidar dos mais necessitados e carentes nas mais diversas dimensões que o cuidar exige.

Foi estudando e praticando os cuidados paliativos que cheguei à Rocinha e ao Vidigal. Ao deparar com a precariedade de muitos pacientes acamados, procurei protagonistas locais que, de alguma forma, já cuidavam de seus moradores vizinhos para que eu pudesse conhecer melhor o cenário e a rede de saúde ali instalada.

Fazer esse trabalho sozinho não se sustentava e, como nos cuidados paliativos o princípio é a multidisciplinaridade, busquei profissionais de saúde voluntários que pudessem untar e botar em funcionamento a engrenagem local.

O Estado, por si só, não consegue atender às necessidades de saúde evidenciadas por essa população. É preciso que iniciativas complementares se façam presentes no contexto do sofrimento humano, para que a dor seja diminuída e a dignidade seja um direito constituído e real.

O movimento da comunidade compassiva é baseado na necessidade de grupos se conscientizarem e assumirem responsabilidades na promoção da própria saúde e no cuidado com os outros. Temos um número enorme de pessoas que gritam, ainda que em silêncio, pelos cuidados paliativos, por exemplo.

As comunidades compassivas se desenvolvem partindo do princípio de que a própria sociedade é o grande motor de mudança e a compaixão é um elemento essencial para a criação de redes de atenção. O cuidado entre indivíduos é inerente ao ser humano. O homem, marcado pela história no campo, sempre viveu em pequenos povoados, onde todos se conheciam, se ajudavam e se socorriam.

Na Comunidade Compassiva Rocinha/Vidigal, somos hoje, em média, 70 pessoas envolvidas com o trabalho, sendo 30 moradores e 40 colaboradores. Há um núcleo de liderança, que faz com que as peças do equipamento de cuidado funcionem. Este núcleo é o responsável pela interface com o poder público de saúde do local.

Há também os moradores voluntários que, diariamente, visitam os cerca de 28 vizinhos, socorridos em suas dores física, psíquica, social e espiritual. Eles levam remédios, alimentos, material de higiene pessoal, fraldas… E também cuidam da higiene de alguns deles. Todos os meses há uma reunião presencial com o grupo, e alguma nova capacitação é ministrada.

Os profissionais de saúde voluntários — enfermeiros, médicos, terapeutas organizacionais, assistentes sociais, dentre outros — realizam visitas mensais. Eles também oferecem suporte virtual, por telefone, ao longo do mês. Por fim, há os apoiadores externos, pessoas do Brasil e do exterior que enviam contribuições destinadas à assistência direta aos assistidos, seja por meio de recursos financeiros, seja com outros recursos materiais.

Eis um modelo que facilmente pode ser implantado em outras comunidades por todo o Brasil. Sua força motora é a compaixão.

* Alexandre Silva é enfermeiro, especialista em saúde mental e gestão hospitalar, pesquisador voluntário do Grupo de Estudo e Pesquisa em Cuidados Paliativos da Fiocruz e professor da Universidade Federal de São João Del Rei (MG)