É preciso abrir caminho a uma nova era no tratamento do câncer de mama

Nas últimas décadas, observamos o tratamento do câncer tomar novos rumos. O desenvolvimento de exames, moléculas, terapias e combinações entre elas tem possibilitado personalizar o enfrentamento da doença, trazendo novas perspectivas aos pacientes e à prática clínica.

Nesse contexto, a “quimioterapia oral” consiste em um dos principais avanços da medicina para tratar diversos tipos de tumor. O nome é usado para simplificar o termo “terapia-alvo oral para o tratamento oncológico”: trata-se de medicamentos que atuam em pontos específicos da célula cancerosa e inibem seu crescimento, sendo, em sua maioria, usados na forma de comprimidos.

Quando falamos do câncer de mama, é importante pontuar que esse já é o tipo de câncer mais incidente no mundo em mulheres. No Brasil, os desafios começam nas dificuldades do diagnóstico precoce: cerca de 35% das pacientes descobrem o câncer já nas fases mais avançadas, quando a doença pode atingir outros órgãos e as chances de cura estão reduzidas.

Com a pandemia de Covid-19, então, o cenário tende a piorar. Em 2020, a realização de mamografias de rastreamento e diagnóstico teve queda de 45% na rede pública, e, em 2021, esse número já chegou a 50%. Uma enorme demanda reprimida por diagnóstico e tratamento deverá ser observada no pós-pandemia, em um cenário ainda mais desafiador para os sistemas de saúde.

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Tal cenário também se reflete nos desafios para o acesso a novas terapias. Há quase duas décadas não existem, à disposição da população, atualizações relevantes para tratar o câncer de mama metastático mais comum, o chamado câncer de mama luminal, que tem como característica principal a presença de receptores hormonais e a ausência de proteína HER-2 nas células tumorais. É o tipo mais prevalente hoje, representando sete em cada dez casos.

As principais inovações para enfrentar esse tipo da doença já estão disponíveis no sistema privado brasileiro, mas não na rede pública, o que reflete uma enorme disparidade no acesso ao tratamento para as mulheres que não têm plano de saúde.

Atualmente, está aberta uma janela de oportunidades para a contribuição da sociedade civil na incorporação de novas terapias para o câncer de mama avançado no SUS, um passo essencial para trazermos aumento de sobrevida e, principalmente, qualidade de vida a essas pacientes.

E nessa luta todos podem se engajar: a Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS) está com uma consulta pública para a incorporação de uma classe terapêutica inovadora voltada ao tratamento de pacientes com câncer de mama luminal avançado ou metastático, os inibidores de ciclina, medicamentos que atuam contendo a multiplicação das células doentes.

Para contribuir em uma consulta em vigência, é necessário acessar o site da Conitec, checar as listas disponíveis e os procedimentos previstos por cada uma. Médicos, demais profissionais da saúde, pacientes e a população em geral podem participar desse processo. No centro da discussão gira o acesso a tratamentos mais modernos e eficazes e a vida de tantas brasileiras.

* Antonio Carlos Buzaid é oncologista, diretor médico do Centro de Oncologia da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo e cofundador do Instituto Vencer o Câncer