Êxitos e desafios a vencer quando se fala na saúde dos homens brasileiros

Conscientizar os homens para a importância de cuidar da saúde é um grande desafio no Brasil. E mudar esse paradigma e fazer com que assumam o protagonismo da própria saúde é mais do que necessário. Desde o início da pandemia da Covid-19, esse cenário se evidenciou, e o Dia Nacional do Homem vem renovar o alerta aos brasileiros: segundo o IBGE, eles vivem sete anos a menos que as mulheres.

Em 2020, entre julho e setembro, uma pesquisa do Instituto Lado a Lado pela Vida (LAL) ouviu 1 080 homens de 14 a 91 anos e um quinto dos respondentes relatou ter cancelado consultas e tratamentos médicos sem recorrer à telemedicina. Destes, apenas 17% foram atendidos virtualmente por médico ou psicólogo.

O receio de ir a consultas e iniciar tratamentos devido à possibilidade de contaminação pelo vírus agravou esse cenário de descuido. A alteração dos hábitos da população impactou diagnósticos e tratamentos, tornando o Brasil um país de uma doença só, a Covid-19.

Iniciada no quinto mês da pandemia, a pesquisa revelou dados alarmantes: a saúde emocional dos homens foi mais abalada que a saúde física durante a quarentena. Apenas 19% se autoavaliaram com saúde emocional muito boa. Destes, 96% vivenciaram pelo menos um sentimento negativo, como ansiedade, estresse ou desânimo.

A difusão da cultura de que o papel de cuidar é atribuído às mulheres, desde a infância, influencia o descuido do homem com sua saúde física e mental. Nesse contexto, eles terceirizam o cuidado e perdem o protagonismo. Para mudar essa mentalidade, há 13 anos o LAL atua e lidera as pautas sobre saúde do homem em nosso país, com suas ações que só em 2020 impactaram mais de 57 milhões de pessoas.

Desde 2008, o LAL mantém uma agenda ativa e regular com parlamentares e gestores públicos, contribuindo para a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem, que inclui ações com a Coordenação da Saúde do Homem, do Ministério da Saúde.

Nessa pauta, um grande esforço do instituto é falar sobre o câncer de próstata, que nos próximos anos deve atingir um em cada seis brasileiros acima de 60 anos. Em 2011, o LAL criou o Novembro Azul, uma das campanhas de conscientização mais importantes do mundo. E muita coisa mudou após a sua criação em nosso país.

O que era tabu, como o exame de toque retal para a detecção precoce da doença, tornou-se assunto recorrente na imprensa e nas casas dos brasileiros, desmistificando algo tão importante para a preservação da vida e sensibilizando a atenção dos homens com o próprio corpo. O movimento cresceu de maneira exponencial, tornou-se a maior campanha em prol da saúde do homem do país e, hoje, faz parte do calendário nacional, com a adesão do Ministério da Saúde, de hospitais, empresas, artistas, formadores de opinião, atletas, mídia, organizações da sociedade civil e população em geral.

Mesmo com os avanços a celebrar, há muito a ser feito. O risco de infarto entre os homens, por exemplo, permanece alto. Eles são os mais suscetíveis, principalmente os pertencentes à faixa etária acima dos 55 anos. O câncer de pulmão é outra doença com maior prevalência e taxa de mortalidade entre eles. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), 17 760 homens desenvolveram a doença em 2020 — entre as mulheres, o número foi de 12 440.

O câncer de pênis, um tabu inclusive na imprensa, é uma das principais pautas do Instituto Lado a Lado pela Vida quando o assunto é alertar a sociedade para a saúde do homem. São cerca de 1 600 amputações do órgão por ano no país, segundo a reunião de dados de diversas fontes que o LAL pesquisa, pois não há um único local em que eles estejam disponíveis, devido à subnotificação ou notificações díspares, considerando que parte dos acometidos entram no sistema de saúde com a indicação de doença na pele.

Essa é daquelas estatísticas que temos de mudar! E a forma é relativamente simples, pois a higienização correta do pênis elimina o risco. A limpeza adequada afasta a doença, assim como a vacina do HPV, outra forte aliada nesse combate. Sobre esse tumor, que muitos desconhecem existir, a falta de informação, a dificuldade de acesso à saúde e a vergonha de procurar um médico impossibilitam o diagnóstico precoce e a erradicação dos casos.

Por ser uma eterna otimista, reconheço que temos de celebrar os avanços dessa jornada de mais de uma década, não só do êxito do Novembro Azul, mas na conscientização dos homens para a prevenção de outras doenças prevalentes. Há muito a ser feito, como reduzir a dificuldade de acesso aos sistemas de saúde, público e privado, combater a desinformação, diminuir a desigualdade social e o preconceito.

O olhar precisa se voltar adiante, para enxergarmos os percalços que ainda persistem e encurtam a expectativa de vida dos homens. O caminho é longo e muitas vezes turbulento. Mas o nosso lema é o de não desistir nunca.

* Marlene Oliveira é fundadora e presidente do Instituto Lado a Lado pela Vida