Inteligência artificial + eletrocardiograma = medicina mais preventiva

Não sabemos ainda até onde o uso da inteligência artificial (IA) pode avançar na medicina. Mas já é fato que a ciência da computação está viabilizando que as máquinas raciocinem como a mente humana. Isso, por sua vez, poderá contribuir para uma medicina mais personalizada e preditiva.

Um estudo inédito do qual participei, publicado na Nature Communications, uma das mais conceituadas revistas científicas do planeta, utilizou inteligência artificial aplicada à leitura de eletrocardiogramas para avaliar o risco de morte dos pacientes. Como conclusão, a pesquisa sugere que a idade prevista pela IA a partir do eletrocardiograma pode ser um parâmetro da saúde cardiovascular e geral.

O eletrocardiograma (ECG) é o exame mais utilizado para o rastreamento e a avaliação das doenças cardiovasculares – falamos daquele método que, por meio de eletrodos colocados sobre o peito do paciente, permite captar e analisar o ritmo elétrico do coração. E a interpretação computadorizada do ECG foi desenvolvida para facilitar a pesquisa médica e a prática clínica.

Dá para imaginar quanto esse resultado preditivo pode apoiar o trabalho dos profissionais de saúde? O objetivo principal da nossa pesquisa foi justamente melhorar a estratégia de prevenção e predição de riscos – de doenças cardiovasculares ou quaisquer outras.

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O uso de algoritmos no estudo permitiu identificar que a idade estimada pelo ECG, quando menor que a idade cronológica, representa um menor risco de morte. Do outro lado, uma idade eletrocardiográfica maior que a biológica demonstrou ser um fator de risco. Os resultados revelam que, diante de uma idade eletrocardiográfica oito anos menor que a cronológica, há uma redução de 22% no risco de morte.

No trabalho, demonstramos que a idade eletrocardiográfica prevista por IA manteve seu valor preditivo mesmo após o controle da presença de fatores de risco cardiovascular e também em indivíduos com ECGs normais.

Os exames de ECG são de baixo custo e amplamente disponíveis, fazendo parte da avaliação de rotina de muitos pacientes na atenção primária e especializada. Portanto, se o ECG puder fornecer estimativas de risco de adoecimento, independentemente e em adição aos outros fatores de risco tradicionalmente conhecidos (tabagismo, sedentarismo, hipertensão, diabetes etc.), ele poderá ser de grande utilidade numa abordagem focada na prevenção de doenças.

O dados deste estudo foram derivados de uma base que consiste em registros de eletrocardiograma de 1 558 415 pacientes de 811 municípios do estado de Minas Gerais. A pesquisa recebeu financiamento do CNPq, da CAPES, da FAPEMIG e suporte da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). E, ao demonstrar o potencial dessa aliança entre inteligência artificial e eletrocardiograma, abre caminho a uma ferramenta capaz de salvar ainda mais vidas.

* Marcelo Martins Pinto Filho é cardiologista, pesquisador e coordenador do serviço de prevenção do Instituto Orizonti, em Belo Horizonte