O papel da fisioterapia respiratória durante e depois da Covid-19

Apesar de o coronavírus causar sintomas brandos na maior parte das pessoas, há uma parcela que encara a versão grave da doença e precisa de intervenções hospitalares. Para essa turma, os problemas não acabam quando o vírus some do organismo.

Para ter ideia, indivíduos que são internados podem sair do hospital com sequelas neurológicas, fraqueza muscular e dores pelo corpo. “Alguns desenvolvem estresse pós-traumático, crises de ansiedade e pânico, entre diversos outros problemas”, conta a médica Simone Raiher, coordenadora do ambulatório pós-covid do Hospital Santa Catarina – Paulista.

A lista é variada, mas um dos órgãos mais comprometidos mesmo pelo Sars-CoV-2 é o pulmão. Por isso, ele exige cuidados especiais, durante e após a infeccção pelo vírus. É aí que entra a fisioterapia respiratória.

“Dependendo da gravidade da doença, o paciente pode demorar de três a seis meses para ter uma recuperação satisfatória do órgão”, explica o pneumologista Oliver Nascimento, também do Santa Catarina.

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O que é a fisioterapia respiratória?

“No geral, ela consiste em exercícios que dão o suporte para que o paciente respire bem, realizando as trocas gasosas de forma adequada. A ideia é que ele não sinta dificuldades para fazer atividades do dia a dia”, resume a fisioterapeuta Débora Schujmann, pesquisadora da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).

Na prática, os experts recorrem a uma gama de técnicas e aparelhos. Por exemplo: uma pessoa que está com as vias aéreas obstruídas pode aprender movimentos específicos para facilitar a liberação de secreções dos pulmões, auxiliando no funcionamento do órgão.

Agora, um sujeito que está internado com dificuldade para respirar necessita de intervenções mais intensas, como aparelhos de suporte de oxigênio. Também é papel do fisioterapeuta avaliar o quadro, sugerir o equipamento mais eficaz e adequar os níveis de ventilação.

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O papel contra o coronavírus

O Sars-CoV-2 causa uma inflamação no pulmão, uma pneumonia viral, que dificulta a realização das tais trocas gasosas. Daí vem o cansaço e a dificuldade de realizar atividades rotineiras.

Para amenizar esse efeito, a fisioterapia respiratória começa no momento em que o paciente é hospitalizado, auxiliando na recuperação da capacidade respiratória e protegendo os pulmões de fadiga e perda de funções. “O primeiro passo é adequar o suporte respiratório de que o paciente precisa. Às vezes, é um catéter de oxigênio, em outras situações usamos um aparelho de VNI [ventilação não invasiva]. Depende do caso”, explica Débora.

Esse ajuste é o início do tratamento. O aparelho de VNI, por exemplo, joga o ar dentro do pulmão junto com uma pressão que consegue expandir os alvéolos, favorecendo as trocas gasosas. Assim, o indivíduo precisa fazer menos esforço para o ar entrar e acaba conseguindo descansar os músculos do pulmão.

“É como se o equipamento falasse assim: olha, descansa um pouco, que eu te ajudo com a força aqui”, explica a fisioterapeuta. “Antes, quando o músculo estava fadigado e não tinha mais habilidade de puxar o ar, o paciente precisava ser intubado direto. Agora, a VNI possibilita que ele descanse e ainda fornece o suporte de oxigênio de que o corpo precisa”, completa.

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Depois desse auxílio inicial, também é papel do fisioterapeuta avaliar cada paciente caso a caso e prescrever um plano terapêutico que, além de dar suporte respiratório, mantenha a capacidade muscular do corpo.

“O paciente com Covid-19 precisa de exercícios globais, que ativam o corpo inteiro, ou seja, aeróbicos e de fortalecimento muscular e cardíaco. Eles também ajudam a normalizar as funções do pulmão”, ensina Débora.

E tudo é pensado como parte de um processo: após a estabilidade do quadro, conquistada com o auxílio de uma equipe multiprofissional, os fisioterapeutas já começam a pensar em movimentos – desde sentar na cama e levantar para ir ao banheiro até exercícios mais funcionais e respiratórios, que estimulem os pulmões e os músculos do corpo.

“O objetivo é que o paciente vá ganhando condicionamento e perdendo o cansaço, até conseguir ficar sem o suporte de oxigênio”, sintetiza a pesquisadora da USP.

Quem precisa de fisioterapia respiratória no pós-Covid?

Antes de o paciente sair do hospital, seu estado deve ser analisado. “É preciso fazer exames para avaliar se há sequelas e problemas relacionados ao comprometimento pulmonar”, informa Simone Raiher.

“Algumas pessoas saem do hospital precisando de medicações por algum período, como broncodilatador, corticoide e anticoagulante. Tudo isso é levado em conta para se recomendar a fisioterapia mais adequada”, explica a coordenadora do ambulatório pós-covid do Hospital Santa Catarina.

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Com base nos resultados, podem ser prescritos exercícios especificamente respiratórios, como movimentos de expansão pulmonar, e atividades aeróbicas. Alguns pacientes mais graves muitas vezes precisam de sessões de VNI (a ventilação não invasiva) em casa – sempre com um acompanhamento profissional, jamais sozinho – ou numa clínica de fisioterapia, pois o cansaço é tão profundo que chega a atrapalhar atividades do cotidiano.

Quando posso fazer os exercícios sozinho em casa?

Não custa reforçar: os casos mais graves exigem obrigatoriamente um monitoramento profissional. “Quem ainda usa suporte de oxigênio ou passou por um quadro complicado precisa de acompanhamento até para realizar exercícios simples”, afirma Débora.

“Para fazer uma atividade aparentemente tranquila, como sentar e levantar da cama quinze vezes, diversos parâmetros como saturação periférica e frequência cardíaca devem ser controlados por um profissional”, ilustra a fisioterapeuta.

Para casos menos sérios, a recomendação é realizar pelo menos uma avaliação do estado pós-internação com um profissional de fisioterapia, para que ele direcione os melhores exercícios e a frequência com que devem ser feitos. Atividades de respiração e fortalecimento muscular podem ser recomendadas pelo especialista e praticadas em casa.

Pilates, ioga e outras modalidades que trabalham a respiração podem funcionar como um complemento, mas o correto é conversar com um especialista para que ele dê o aval e passe orientações de acordo com a realidade de cada paciente.