O que é obstrução intestinal? Entenda o quadro que acomete Bolsonaro

Depois de ser internado com dores abdominais e uma crise de soluço persistente, o presidente Jair Bolsonaro recebeu o diagnóstico de suboclusão intestinal, no Hospital Vila Nova Star, em São Paulo/SP. A informação foi confirmada pela Rede D’Or, administradora da instituição.

O quadro acontece quando há uma barreira dificultando a passagem de fezes e gases pelo interior do órgão. Já a obstrução intestinal, antes noticiada, é uma interrupção total do fluxo.

Ambas as situações são relativamente frequentes em pessoas que passaram por cirurgias abdominais, como é o caso do presidente, que já foi submetido à quatro operações relacionadas ao atentado sofrido em 2018.

Além disso, problemas como câncer de intestino, sangramentos, doenças inflamatórias intestinais, retocolite e diverticulite aguda podem travar o trânsito local.

A obstrução ocorre em diversas regiões do órgão. “Ela se dá no intestino delgado, o mais fino, onde acontece a absorção dos alimentos, ou no grosso, onde são formadas as fezes”, explica o gastrocirurgião Eduardo Grecco, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM).

Queixas mais brandas, como infecções intestinais, também podem evoluir desse modo, comenta Fábio Guilherme Campos, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Coloproctologia e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). O mais comum, contudo, é que o entupimento surja como complicação pós-operatória, mesmo que meses ou anos após o procedimento.

“Há uma chance média de 10% de desenvolver esse quadro ao longo da vida depois de cirurgias de laparotomia [intervenção que exige a abertura do abdômen]. Quanto mais invasivo for o procedimento, maior a probabilidade de aparecerem aderências no intestino, causando a obstrução”.

A aderência é a formação de um tecido fibroso durante o processo de cicatrização que pode conectar duas parte do intestino ou criar um ângulo muito fechado no interior do órgão. Cortes da cirurgia ainda podem criar hérnias, que também provocam a obstrução. “É como dobrar uma mangueira de tal forma que o fluxo da água seja interrompido”, ilustra Campos.

Soluço e outros sintomas da obstrução

Quando o intestino está bloqueado, o paciente não consegue evacuar, nem liberar gases. Isso provoca vômitos, enjoo, estufamento da barriga, dores abdominais e também um soluço mais persistente – o de Bolsonaro, segundo ele próprio, durava ao menos dez dias.

Trata-se de um sintoma mais tardio. “Ele aparece quando o estômago já está cheio de líquidos e a pessoa chega a ter dificuldades para conseguir engolir a saliva. Nessa situação, o estômago fica distendido e há refluxo, que gera o soluço”, esclarece Campos.

O soluço é uma contração involuntária do diafragma, músculo que fica entre os pulmões e o estômago. “Por isso, ele também ocorre após comer muito rápido ou consumir alimentos pesados e gasosos à noite, o que irrita esse músculo e aumenta o volume do abdômen”, explica Grecco.

Como ocorreu com o presidente, nessa situação é preciso colocar uma sonda nasogástrica (no nariz) para reduzir a pressão nos órgãos e eliminar líquidos e secreções.

Tratamento conservador e cirurgia

Não é raro ter que fazer uma cirurgia para liberar o trânsito intestinal. Antes disso, contudo, o médico toma providências como submeter o indivíduo a tomografiaraio-x, que auxiliam na decisão sobre a intervenção, e iniciar outras medidas terapêuticas. “A pessoa fica em jejum, é hidratada, recebe glicose na veia, coloca sonda nasal para aliviar a pressão e usa medicações anti-inflamatórias”, explica Grecco.

O principal sinal de melhora é o paciente conseguir voltar a evacuar. “Esse é um momento de decisão importante, onde o profissional avalia se irá ou não operar e a hora certa para isso, para não complicar ainda mais o problema”, avalia Campos.

Na cirurgia, os médicos vão primeiro avaliar a real causa da obstrução. “Pode ser preciso desgrudar as alças do intestino ou, se houver alguma complicação, até tirar parte do órgão onde está o problema. A partir daí, é comum ficar internado entre cinco a 10 dias para reintegrar a dieta aos poucos”, esclarece o professor Grecco.

Depois da intervenção, a pessoa deve seguir uma alimentação rigorosa e ter acompanhamento médico, pois o problema pode voltar. Ainda não se sabe, contudo, se Bolsonaro será operado.