Qual o futuro da diálise no Brasil?

Hoje é o “Dia D da Diálise”, uma mobilização nacional, organizada por várias entidades do setor, para chamar a atenção das autoridades e da sociedade sobre a importância da Terapia Renal Substitutiva.

Esse tratamento substitui as tarefas dos rins quando eles deixam de funcionar. Vale lembrar que esses órgãos filtram o sangue e retiram toxinas do organismo, eliminando líquidos em excesso, equilibrando a pressão arterial e participando da produção de hormônios, entre outras funções.

Muitas dessas atribuições são vitais e, por isso, quando surgem problemas renais graves, devem ser imediatamente substituídas – caso contrário, há risco de morte rapidamente.

Embora os rins “envelheçam” aos poucos, prejudicando seu pleno desempenho ao longo da vida, diversos fatores podem contribuir para uma perda precoce da função renal, especialmente a presença de diabetes e hipertensão. Outras situações comuns também podem atrapalhar o órgão, como tabagismo, obesidade e uso indiscriminado de remédios.

Condições mais raras não ficam de fora: doenças reumatológicas, glomerulopatias, alguns distúrbios genéticos, os cálculos renais graves e até mesmo malformações do sistema urinário são capazes de abalar os rins.

Um complicador chamado coronavírus

Muitos de vocês devem ter tido conhecimento de pacientes acometidos pela Covid-19, em estado grave, que precisaram fazer hemodiálise. Nós, nefrologistas, nos orgulhamos muito de termos salvado muitos pacientes nesse contexto, justamente porque conseguimos mantê-los vivos através da diálise, apesar de terem órgãos vitais totalmente comprometidos.

Considerando, então, que esse é um tratamento que salva vidas, precisamos levar cada vez mais informação qualificada para que a população reconheça a importância do procedimento para milhões de pacientes no mundo.

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Hoje, cerca de 140 mil brasileiros dependem de diálise para sobreviver, sendo 85% tratados com recursos do SUS. A nossa taxa de prevalência está em torno de 600 pacientes por milhão. Em países vizinhos, esse número é muito maior, o que talvez signifique que, em outras regiões, há mais diagnóstico e mais acesso ao tratamento.

Saber que no mundo existem terapias, medicamentos, máquinas, enfim, tecnologias capazes de salvar mais vidas, mas que podem não ser acessíveis a muitos brasileiros, é motivo de indignação para os médicos do país.

A situação se agrava ainda mais quando olhamos para a saúde pública. A nefrologia, justamente através da diálise, é uma das poucas áreas da medicina em que se pode garantir uma sobrevida de muitos anos ao paciente que vê um órgão entrar em falência. Porém, não conseguimos afirmar com tranquilidade que todos os brasileiros com problemas renais graves têm, e continuarão a ter no futuro, o acesso à terapia renal substitutiva na quantidade e qualidade necessárias.

São inúmeros os desafios para garantir a qualidade assistencial aos pacientes renais brasileiros, especialmente aqueles que dependem do SUS. Os valores pagos por esse sistema para os prestadores de serviços de diálise estão muito baixos e não sofrem reajustes há anos. A situação é tão crítica que muitas clínicas já estão deixando de atender pacientes sem planos de saúde privados.

Os valores reembolsados pelo governo não cobrem os custos para um tratamento com a qualidade necessária que muitos prestadores se sentem eticamente obrigados a oferecer. Além da falta desses reajustes que não corrigem sequer a inflação anual, outros impactos expressivos nos custos, especialmente pela depreciação do real e pelo aumento da carga tributária, contribuíram para o grave desequilíbrio financeiro das unidades de diálise no país.

A Fresenius Medical Care, onde trabalho, tem um objetivo tecnológico claro: desempenhar um papel fundamental no desenvolvimento e na otimização do tratamento de diálise para melhorar continuamente o dia a dia dos pacientes com falência renal. Temos o compromisso de garantir que essas pessoas tenham um futuro que mereça ser vivido.

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Na tecnologia de diálise, mesmo as menores melhorias podem ter um impacto positivo muito significativo na vida diária dos pacientes. Os tópicos variam desde o aprimoramento de uma agulha ou uso de uma técnica de punção mais indolor, até o ajuste fino digital de equipamentos.

Mas, hoje, infelizmente precisamos ainda lutar pelo mais básico: pela manutenção das clínicas existentes, concentradas em apenas 7% dos municípios brasileiros; pela abertura de novas clínicas espalhadas por esse grande país; pela possibilidade de realizar a diálise peritoneal; pela grave falta de medicamentos para pacientes renais e até mesmo pela diminuição das dificuldades enfrentadas para a confecção do acesso vascular.

É simplesmente desolador saber que a população brasileira viverá mais, mas não poderá ter acesso sequer aos tratamentos de diálise menos sofisticados quando chegar o momento – o que dirá, então, dos tratamentos que realmente proporcionam uma melhor qualidade de vida. Por isso, no “Dia D da Diálise”, vamos continuar lutando por todos aqueles que precisam (e vão precisar) desse tratamento para sobreviver. Vidas importam!

*Ana Beatriz Barra é nefrologista e diretora médica na Fresenius Medical Care