Sabia que de 10% a 20% dos adolescentes do mundo têm depressão?

Mudar de humor é normal, ainda mais na adolescência. Sentimentos desagradáveis aparecem e são comuns quando têm relação com situações difíceis que acontecem no dia a dia. Mas, mesmo nessa fase, em que tantas mudanças podem parecer naturais, é necessário estar alerta para o surgimento de sintomas de transtornos mentais.

São doenças como depressão, ansiedade, transtorno bipolar e esquizofrenia, entre outras. Afetam o jeito de sentir, pensar e reagir aos acontecimentos. É uma situação comum: estima-se que, no mundo inteiro, de 10% a 20% dos adolescentes vivenciem a depressão. É muita gente!

A questão é séria. Não existe uma causa única para a depressão, e ela vai muito além da tristeza passageira. O distúrbio normalmente se dá pela combinação de diversos fatores, internos e externos, como a dificuldade em lidar com situações desafiadoras e até a desregulação dos hormônios que controlam as emoções. Não tem nada a ver, portanto, com frescura ou “drama de adolescente”.

O alerta aumenta quando os sintomas começam a demorar para ir embora. É sinal de que a depressão pode estar se tornando uma condição crítica. Seus efeitos são graves: a doença costuma causar um grande sofrimento, além de dificuldades no trabalho, na escola ou no meio familiar. Na pior das hipóteses, pode levar ao abuso de substâncias e ao suicídio. Cerca de 800 000 pessoas morrem por suicídio a cada ano – sendo essa a segunda principal causa de morte entre pessoas com idade entre 15 e 29 anos.

Por mais que alguns sintomas sejam universais, independentemente da faixa etária, existem alguns sinais para se ficar de olho quando o assunto é depressão na adolescência. Tristeza, sentimento de culpa, cansaço constante, problemas de memória e concentração, choro frequente, automutilação, alteração do apetite e de peso, queda no rendimento escolar, mudanças de comportamento, desinteresse pelo futuro, prazer somente no mundo virtual e pensamentos suicidas são alguns desses sintomas.

Atitudes simples podem ajudar. Elas podem mostrar ao adolescente como ele é importante e, assim, convencê-lo a realizar atividades que promovam a sensação de bem-estar. Além disso, é crucial que a família demonstre que o adolescente está integrado e pertence àquele núcleo e lhe dê voz na tomada de decisões, por exemplo.

Se você conhece alguém que anda se machucando de propósito ou postando mensagens sobre a vontade de acabar com a própria vida, procure conversar com essa pessoa. Aliás, evite abordagens como: “Pode deixar que não conto para ninguém sobre seus cortes e sua vontade de morrer, pode confiar em mim”. O melhor é conversar com mais alguém e ajudar a pessoa a pedir ajuda especializada.

Guia jovem

Pouco se discute sobre saúde mental e transtornos mentais em adolescentes e jovens. Mas é importante falar abertamente sobre o assunto. Perceber que a pessoa tem um problema é o primeiro passo para resolvê-lo. Afinal, depressão tem tratamento. Existem profissionais de saúde especializados exatamente para ajudar a lidar com a doença e, com isso, retomar a qualidade de vida.

O médico psiquiatra assim como o psicoterapeuta estão preparados para fazer o diagnóstico e a avaliação e indicar o melhor caminho. São pessoas capacitadas para entender o que o adolescente está vivenciando e, assim, buscar soluções.

O ponto principal para a prevenção e o tratamento é a procura de um especialista, mas ajuda muito contar com o acolhimento e a rede de apoio, seja de amigos, professores ou familiares. É importante que essa rede compreenda a situação do adolescente, sem que ele seja tratado com pena ou superproteção – essas atitudes podem causar mais angústia e preocupação.

É para mudar o jeito de falar sobre saúde mental e depressão que surgiu, em 2020, o Movimento Falar Inspira Vida. A iniciativa tem o objetivo de requalificar, por meio do conhecimento, a conversa sobre depressão e suicídio, criando um ambiente mais favorável para quem precisa de acolhimento e ajuda especializada.

Será lançado, ainda no segundo semestre de 2021, um material exclusivo para adolescentes e jovens adultos. Nele estarão contidas informações valiosas sobre o que precisamos observar em nós e em nossos amigos e familiares. E, principalmente, como e onde pedir ajuda.

A proposta é promover uma mudança no tom da conversa sobre depressão e suicídio. O movimento acredita que, por meio do entendimento correto a respeito da doença, a sociedade estará mais bem preparada para interagir com pessoas que podem estar com a enfermidade.

Nova abordagem

O guia vai descrever situações cotidianas que podem ter impacto na saúde mental dos adolescentes. É uma ferramenta inovadora, exclusiva para os jovens e focada no acolhimento, sem julgamento.

Por exemplo: por mais que a internet tenha muito conteúdo interessante, é bom tomar cuidado, porque o uso prejudicial da tecnologia pode colocar em xeque a saúde mental. Outro caso é o bullying, seja “físico” ou virtual. Brincadeiras, boatos ou mesmo chantagem (quando a pessoa ameaça divulgar mensagens privadas) são capazes de fazer muito mal.

Nesse caso, lembre: internet tem lei! Tire prints e denuncie! Seja com você, seja com colegas ou conhecidos, não veja uma pessoa sofrer agressões sem reagir. E inclua um adulto de sua confiança. Tenha também cuidado com a cultura do cancelamento e com a ilusão que as redes sociais podem criar – aquela ideia de que todos são mais bonitos, ricos e felizes do que você.

As violências – de gênero, classe e raça –, além das agressões dentro de casa, também fazem muito mal para a saúde, não só física como também mental. Vale lembrar que ninguém pode mexer no seu corpo sem sua permissão e a culpa nunca é da vítima!

Além de trazer dicas práticas como essas, o guia também explica o que fazer quando a pessoa apresenta vários dos sintomas da depressão ou conhece quem está passando por isso. Como agir, por exemplo, quando alguém se machuca de propósito ou pensa em se matar?

Existem muitos locais para se pedir ajuda. No Brasil, há o Centro de Atenção Psicossocial (Caps), clínicas-escola de psicologia, ONGs, além do Centro de Valorização da Vida (CVV), dos grupos de adolescentes da Associação Brasileira de Familiares, Amigos e Portadores de Transtornos Afetivos (Abrata) e do Pode Falar, um canal criado pelo Unicef exclusivamente para apoiar jovens e que tem um chat de ajuda.

Não deixe que o medo, o preconceito ou a sensação de isolamento impeçam você de auxiliar ou receber ajuda! “Necessitamos de diálogo, de solidariedade”, reforça o psiquiatra Jair Mari, professor titular do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e coordenador do Programa de Pós-Graduação do Departamento de Psiquiatria da instituição. “O transtorno mental é um problema de saúde pública, com impacto sobre a vida das pessoas. Não existe saúde sem saúde mental.”

Para saber mais, acesse https://www.falarinspiravida.com.br/.