Seis semanas de exercício já impactam o DNA e reduzem risco de doenças

Todos nós somos resultados da interação dos nossos genes com o ambiente. Isso já está bem estabelecido, de modo que, em mais de 90% dos casos, ninguém nasce pré-determinado a desenvolver qualquer doença crônica não transmissível.

O nosso estilo de vida — em outras palavras, a alimentação, a carga de atividade física e o nível de estresse a que estamos submetidos — modulam nossa suscetibilidade à maioria das enfermidades crônicas e degenerativas. E, embora seja amplamente divulgado que o exercício físico regular diminua o risco de uma lista de problemas, os mecanismos genéticos pelos quais isso acontece ainda não eram plenamente conhecidos.

Mas, recentemente, cientistas da Universidade de Copenhague, na Dinamarca, descobriram que os efeitos benéficos dos exercícios resultam, em parte, de mudanças promovidas em nosso DNA. A atividade física está por trás de alterações chamadas epigenéticas. Para entendê-las, vamos revisitar alguns conceitos.

O DNA é o manual de instruções molecular encontrado em todas as células. Algumas seções do nosso DNA são genes, que trazem instruções para formar proteínas — os blocos de construção do corpo —, enquanto outras seções são chamadas de acentuadores, que regulam quais genes são ligados ou desligados, quando e em que tecido.

Os cientistas descobriram, pela primeira vez, que os exercícios religam os acentuadores em regiões de nosso DNA que são conhecidas por estarem associadas ao risco de desenvolver doenças. Ou seja, o treinamento altera a atividade de acentuadores no tecido muscular, que, por sua vez, regula a expressão de genes que contribuem para a saúde.

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A explicação genética ajuda a entender ainda mais porque a atividade física regular minimiza o risco de uma série de problemas, tais como doenças cardiovasculares e neurológicas, diabetes tipo 2, câncer e mortalidade precoce.

Os pesquisadores dinamarqueses recrutaram jovens saudáveis ​​e os submeteram a um programa de exercícios de resistência de seis semanas. No período, coletaram uma biópsia do músculo da coxa antes e depois da intervenção e examinaram se mudanças na assinatura epigenética do DNA ocorreram após o treinamento.

Observaram que, depois de completar o programa de exercícios, a estrutura de muitos acentuadores nas células musculares dos jovens foi alterada. O interessante é que essas mesmas regiões do genoma já foram associadas a certas enfermidades.

Temos, assim, evidências de um efeito epigenético desencadeado pelo treinamento físico com potencial para prevenir doenças. E essa é uma nova e importante contribuição da ciência para entender e incentivar o papel de um estilo de vida ativo e saudável.

* Marcelo Sady é pós-doutor em genética toxicológica e humana e diretor-geral e consultor científico da Multigene